Quanto mais se aprende, mais se sabe. Quanto mais se sabe, mais se esquece. Quanto mais se esquece, menos se sabe. Então, para quê aprender?

29
Jun 08

 

(prazo legal para reclamações)
‘Dê-me aí o libro de réclamações qu’eu quero dezer umas coisas a quem manda, qu’eu nem sei ler nem escreber mas sei qando me tão a comer, e só me comem s’eu deixo, qu’esta coisa de uns serem filhos da mãe e outros da mardasta é coisa qu’eu num engulo assim sem escupir. Bote aí no libro qu’eu quero saber quem manda nisto e proque é qué co mê Juvenaldito num passou com seis negatibas e o Limandro da minha comadre Elizária passou com nobe. O mê filho, eu disse lá à melher que me chamou pra eu dari o mê parcêri, qu’é um garoto muito inducadinho, ê não o bejo estudar em casa, mas ele diz que já fez tudo lá na escola, ele lá em casa faz tudinho e está sempre cuntente, mas eu sê qu’eles têm de bir à escola, mas ele é um ror de dinheiro e so cachopo me chumba mais um ano, sai daqui já com bigode e ao despois também num sabe fazer mais nadinha, e eu sou uma incarregada que benho à escola buscar as notas e bejo destas injustiças, o mê Juvenaldito qu’até andou nessas aulas prá ajudar a passar. Pois diga lá a quem manda quê quero o meu filho passado comó filho da comadre ou bão ber quem ê sou, ai bão, bão.’
(trrrtrrrrtrrrrssssstrrrrsssstrrrrsssss)
[pedido de parecer à DREC: Dúvidas Resolvidas Em Conventos]
(trrrtrrrrtrrrrssssstrrrrsssstrrrrsssss)
Resposta via fax:
‘Face ao exposto determina-se que, em circular emanada por estes serviços, todos os processos sejam revisto com urgência e a taxa de insucesso nesse convento seja igual a zero. Com os nossos melhores cumprimentos’.
[Amén.]
publicado por Soror AlCuMofadado às 22:13

27
Jun 08

 

8 e 30.
Os frades e freiras sentam-se, em volta das mesas unidas, durante as orações matinais, para darem início aos trabalhos, dos quais serão sempre lavradas actas.
Postas as mãos, lida a ordem de afazeres, sobressai uma voz harmoniosa.
‘Não sabeis o que é o mirtilo? Deuses, como se pode ainda ser feliz neste mundo.’ murmura Soror Maneleide.
Lá no convento para além dos azedumes aprendem-se umas coisas mais doces, embora eu continue convicta que a verdadeira felicidade reside na total ignorância. Sabei que depois de se provarem determinadas iguarias é difícil ficarmos por ali.
Já vos falaram em arando ou uva-do-monte? Santa incultura.
Pois sabei que actua em casos de diarreias graves, o que faz imenso jeito nesta altura do campeonato. É ainda indicado para acção local no alívio de inflamações na boca e catarros, o que também está adequado a esta época do ano. E pasmai, na culinária pode ser utilizada em geleias, marmeladas, vinho e bolos!
 
Vereis que depois de provardes o verdadeiro mirtilo todos os outros frutos parecerão poucos suculentos, com pouca melosidade e sem proporcionarem consolo às almas e aos corpos.
Suspiram os conhecedores, rebuscando nas memórias o sabor perdido e aguçam-se as mentes prestes a perderem a inocência, santa inocência! quando soa a voz abrasada, lá dos fundos, da Soror Filodeia: ‘Vá, vá, toca a despachar, que quero ir ver o jogo!’
 
publicado por Soror AlCuMofadado às 11:49

25
Jun 08

 

Que há descrentes, há.
Há-os por todos lado, como os escaldões no verão e as frieiras no inverno.
Que há milagres, há.
Que o diga eu, cada dia que passa, depois de os meus sentidos abarcarem um conjunto de factores inexplicáveis à luz da racionalidade.
Que há extraterrestres, há. Cada vez duvido menos, ou não seria eu, com patente por registar e identificação guardada em chip aí num ovni que ainda me há-de vir buscar, deixar de acreditar em tais prodígios.
Que há santos milagreiros em final de ano nem se questionaria, se os mortais presenciassem os nossos desfechos a atirar com litros de benta água nas classificações dos noviços e noviças.
Santa Lequecilde é a santa das causas perdidas, acabei por descobrir. Tem mais trabalho nestas alturas de exames e avaliações que todos os intervenientes que se ralam em levar o rebanho até ao fim.
Desconfio que Santa Lequecilde é contratada pela Madre antes das férias. Deve ter uma carga milagrosa imensa, já que se distribui de forma omnipresente por salas e salas de conventos, de norte a sul. E é vê-la benzer aqui, ponderar além, dar um ditame aqui, milagrar acolá. A Madre sorri, satisfeita. Penso que nem em velas lhe paga, mas também o orçamento anda pelas ruas da amargura e é preciso é que as ovelhas tresmalhadas voltem ao redil no próximo ano. Estamos em franca evolução!
Não há dúvida, Santa Lequecilde é santa de causas perdidas.
Uns milhares de noviços e noviças nunca saberão como diabo aparecem, nas tabelas dos progressos, os transitados e aprovados!
publicado por Soror AlCuMofadado às 00:58

24
Jun 08

 

Sentadas, ambas, sob a árvore ainda tenra e que em tempos os mais velhos cuidavam e agora os mais novos castram das folhinhas recentes, abanavam a cabeça e deixavam correr mais uns minutos do montante da vida.
Tinham, uma e outra, daqueles olhares que se perdem em passados e futuros e não precisam de palavras para medir nostalgias, cumplicidades ou desejos.
O adro está numa paz ansiada. Só um ventinho sopra de norte e abana as folhas, acariciando a pausa merecida. As nuvens advertem que ainda não é verão apesar do calendário.
O adro dorme a sesta depois de um ano em que viu o nunca visto. É quase ofensa um sussurro, mas a Madre não descansa. Rumina tarefas de noite, engendrando empreitadas cada dia, elas o adivinham.
__ Vamos ver o mar, Santa Eulália? Vestimos o biquíni, cheiramos a maresia e deixamos para trás isto tudo e saímos daqui cantando e rindo? Ou… Constou-me que andais preparando uma excursão ao meu Lorvão e tal não é mal pensado, tem bons ares por lá…
__ Que sandice, filha. Levanta é lá esse cu pesado e toca a dar à unha, que a Madre não dorme! Querias mandar o convento às urtigas e passear, aquilo a que os prevaricadores chamam férias? Ainda a procissão vai no adro…
publicado por Soror AlCuMofadado às 09:50

20
Jun 08

 

A Eligária é assim a modos que uma mastronça de uma noviça a repetir os mesmos cânticos gregorianos pela terceira vez. Teimosa que nem a burra da paróquia, por onde passa leva tudo à frente e sem daqui vai. Tem um certo jeito de mãos, fazendo de qualquer papel, tesoura e cola uma obra digna de ficar no museu. A sacola que a acompanha é uma mistura de contentor sem separação de lixo, de onde saem, com artes mágicas, fios, arames, tampas, tecidos, desodorizante, caixas de fósforos… Tenta acompanhar as modernices e ultimamente traz espetado na parte superior da orelha um metal, daqueles de segurar as meias novas, à laia de piercing que esconde antes de regressar a casa.
Do que gosto na Eligária, tirando a voz estridente com que massacra os demais, é a pureza de escrita. Num destes dias, como sempre navegando no seu mundo de criatividade, estava concentrada a escrever naqueles papelinhos amarelos que se colam para ajudar alembraduras. Caçados os papéis e destinados a um noviço da sua eleição, rezavam assim: “Fenho de Pota” e “Teo pai e õ boi”. Depois de negar como Judas, mas após aturadas investigações, chegou-se à conclusão que a Eligária estava a criar um novo prospecto para se candidatar a uma carreira na educação. 
Eu acho, sinceramente, que a Eligária tem futuro!
publicado por Soror AlCuMofadado às 10:03

09
Jun 08

 

__ Venha dos céus uma bênção, que os altíssimos não brinquem aos dados e um manto infinito de pachorra nos cubra a todos, Madre. Claro que sabeis das últimas. Vislumbro uma nota de incredulidade fazendo vinco na vossa testa? Ora, ora, haveis dado ordens para que assim fosse: que em interminável indulgência se tolerem os pecadilhos dos inocentes. Quão enorme e complacente se tornou o vosso coração, Madre, quando os números contam e as prioridades são as vossas. Já haveis experimentado passar umas horas com as nossas tenras alminhas? Por falar em tal, dir-vos-ei que cada dia que passa são mais meigas. No outro dia, não vos fazei de novas e assumi antes de os jornais e os vídeos de telemóvel mostrarem tal, um dos nossos tenrinhos cascou numa das nossas prestadoras de serviços. Resultado, Madre? Dois exemplares dias a arejar fora do nosso mosteiro, o que dará imenso tempo para reflectir sobre o carinhoso gesto. Caso inédito para vossos castos ouvidos? Não pasmeis, Madre, que um dia destes teremos de ter uma formaçãozita em Judo, Kung Fu, Bu-Shi-Do, Wu Shu, Boxe, Tae-Kwon-Do e outras de nos porem os olhos ainda mais em bico. Fazei por começarmos já estas acções nas férias ou para o ano recearemos pelas nossas costelas, Madre.
__  Como estás tu, minha filha?
__ Olhe, Madre, cá vamos com a cabeça entre as orelhas…
publicado por Soror AlCuMofadado às 09:53

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