Quanto mais se aprende, mais se sabe. Quanto mais se sabe, mais se esquece. Quanto mais se esquece, menos se sabe. Então, para quê aprender?

19
Mai 08

 

Peguei no papel virgem e no lápis pouco afiado, pois agora aguçar nem sequer os sentidos me anda nas intenções.
Fazer listas não é bem o meu género, mas a memória atraiçoa-me já nas coisas comezinhas e rotineiras. No resto, nem que se tenham passado décadas, continuo ainda a competir com os elefantes menos senis.
Para quê perder tempo a fazer um índice, então?
Diria eu que, a continuar assim, um dia destes calco trampa e nem me conseguirei recordar que matéria é essa., talvez por habituação ou porque são os primeiros sinais do cansaço, da saturação e eventualmente da idade.
 
Fazer um rol de queixas é como usar um aspirador na alma, sacudir o pó dos armários das lembranças e passar a esfregona nos esconderijos dos desencantamentos.
Não serve para nada, hão dizer-me complacentes, mas dá um ar de tarefa cumprida e a sensação dúbia de algum arejamento.
De que me queixo? Queixo-me. E não deveria eu queixar-me porquê? Tudo se queixa!
 
Queixo-me da queixa da gaja que anda aflita com a ruga intolerável que surgiu no canto superior esquerdo do olho sem aviso durante a noite e isso pode ser a tragédia do dia.
Queixo-me do grupo das do cabelo sem brilho, a advogar um cansaço de gente que se passeia pelos centros comerciais e lojas de marca e que dizem que nunca se trabalhou tanto como agora.
Queixo-me dos gajos que não param de se queixar das dores, incluindo a que sentem no quinquagésimo sétimo pintelho na orla setentrional do testículo direito.
Queixo-me dos gajos e das gajas que nos dão a volta com interesse e arte e no fim ainda acreditamos que somos as espertas cá do burgo.
Queixo-me da caganeira acompanhada de genuína golfada com que sofro cada vez que ouço mais umas barbaridades como as de hoje, incluindo uma ofensa indigna de um fedelho a uma funcionária ou a mentira grotesca de uma mãe para desculpabilizar o roubo de uma filha.
 
Por hoje encerrei o rol. Agora vou lavar roupa suja noutro lado.
“Água fria, da ribeira, Água fria que o sol aqueceu, Velha aldeia, traga a ideia, Roupa branca que a gente estendeu…”
Esfrega aí, Maria. O relatório estava altamente, minha.
 
(Uma tipa pode pôr o ferrão de fora só para se lembrar que nasceu com um, mesmo não sendo perceptível e sem estar necessariamente entre pernas, e volta e meia até lhe dar algum uso.)
 
publicado por Soror AlCuMofadado às 23:31

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